Ler trecho
Nascimento.
Um trecho real de Re-Cordis: o nascimento, o risco, o oxigênio e o início de uma língua que ainda não sabia falar.
Re-Cordis
A narrativa começa onde a linguagem ainda não chegou: no corpo, na respiração e na primeira travessia do menino.
Começar a escrever um livro em um novo teclado e também sem saber para onde isto vai me levar é uma jornada que nunca explorei antes.
Já escrevi livros acadêmicos, teses, artigos e muita coisa que guardei num baú virtual que, caprichosamente, consegui fazer desaparecer.
Lembrei, não faz muito tempo, que antes dos dez anos de idade, enquanto fazia aulas de catequese na Igreja Católica, uma professora me perguntou o que eu queria ser quando crescer e eu disse, Quero ser escritor, mas não escritor logo quando eu ficasse grande, vou ser escritor aos 50 anos.
Ao escrever estas linhas, tenho 49 anos e dois meses. Agora preciso escolher o que escreverei primeiro. Nos últimos anos tenho passado por grandes desafios para manter minha saúde e conseguir melhorar de uma condição que carrego desde o nascimento.
O primeiro choro foi em 1976, no dia 11 de janeiro, às 11 e 31 da manhã, um dia quente no interior do Brasil. Uma criança de baixo peso que logo foi enfaixada para esconder as duas pequenas hérnias próximas ao seu pequeno sexo que dizia ser um menino, o primeiro filho do homem de bigode e da mulher de cintura fina, que nem com a gravidez ganhara muito peso e tão logo o bebê veio ao mundo, a cintura foi voltando à finura habitual.
No dia do nascimento o homem de bigode abriu todas as suas garrafas de champanhe que guardava para um grande momento, colocou as suas melhores músicas na vitrola e comemorou a noite toda com os amigos e amigas enquanto a mulher da cintura fina ficou no hospital mais alguns dias recuperando-se do parto que não foi normal.
A casa passou cerca de quarenta dias em festa constante. No quadragésimo dia o pequeno bebê que ainda não tinha ganhado peso nenhum voltou ao hospital, o médico de voz mansa e respiração forte acalmou a mulher de cintura fina que tudo ocorreria bem e que era uma cirurgia simples que iria arrumar as protuberâncias na parte de baixo da barriguinha do bebê.
A tarde começava, mas a cirurgia não. Faltava um dos convidados para o que na cabeça do homem de bigode seria uma rápida festa em que o bebê voltaria para casa logo e ainda a tempo de mais comemorações. O médico de fala dura e que seria responsável por deixar o bebê inconsciente e sem dor durante a cirurgia não apareceu.
A mulher de olhar baixo que vestia branco foi ao telefone e fez uma ligação interurbana para a cidade vizinha e uma voz ríspida atendeu e falou, O que você quer, aplica essa dose que deixei prescrita logo…
A mulher emudeceu e pensou que essa dose era para uma pessoa de setenta quilos e depois de três rápidas respirações, tomou coragem e falou, Eu não aplico e o homem de fala dura disse em sua dureza característica, misturada a uma voz pastosa, até meio mole que ele mesmo iria aplicar e que em dez minutos estaria lá.
A cidade vizinha ficava a exatos vinte quilômetros e ele chegou em onze minutos e em quinze minutos as ampolas foram quebradas e a agulha entrou na pele do bebê que viu vários brilhos e apagou, e apagou, e apagou tão completamente que o coraçãozinho também parou.
Os dedinhos ficaram roxinhos no exato momento em que o homem de branco e voz mansa deu quatro passos e colocou o dedo indicador no peitinho esquerdo do bebê e sua suspeita em milésimos foi confirmada, o bebê perdera seu ritmo.
O homem de fala mansa escutou um compasso de beep bop em sua mente e seus dedos começaram a tamborilar uma massagem que continuou por eternos vinte minutos em que o menino entrou no ritmo e saiu mais de trinta vezes, para sermos exatos, trinta e cinco vezes parou e voltou.
O rádio tocava, além do horizonte deve ter algum lugar bonito pra viver em paz. O médico de respiração forte cantarolava em sua mente, de que vale o paraíso sem o amor, e com todo amor do mundo tinha certeza de que o pequeno bebê voltaria sempre a respirar.
O silêncio tomou conta da mente do médico de voz rouca e respiração forte, ele contava trinta e cinco paradas cardiorrespiratórias e sabia que esse ensurdecer do pequeno coração agora foi maior, uma pausa maior do que as trinta e quatro anteriores e sabia que era hora de pegar no bolso da camisa branca de manga curta o frasco, destapar e em feitio de oração pingar três gotinhas na boquinha do bebê, respirar ainda mais fundo e sentir nas pontas dos dedos que ainda seguiam o compasso do jazz imaginário o coraçãozinho voltar ao tam, tam, tam, bem lento nos três primeiros compassos que foram acompanhados por um pai nosso que estais nos céus e acelerou como uma bateria de escola de samba sincronizando depois com o coração do médico que via o quase preto das pontas dos dedinhos do bebê se transformar em roxo, azul e por fim ficar descorado e levemente alaranjado.
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